Fosse Lenny Kravitz um pop star emergente dos dias de hoje, seus discos teriam lugar ao lado de Cee Lo Green, John Legend e Sharon Jones nas abastadas prateleiras retromaníacas tão em voga desde os meados da última década. Let Love Rule, Mama Said, Are You Gonna Go My Way, seus primeiros álbuns, reverenciavam um passado não tão distante quando foram lançados, no início dos anos 90, recheados de riffs, levadas e arranjos que bebiam de águas desbravadas por Hendrix, Led Zeppelin, Curtis Mayfield e Al Green.
Mas para Lenny, a nostalgia não era consciente, estratégica. Tratava-se apenas de uma necessidade de fazer música pop orgânica que se distanciasse do mainstream sintético, predominante nos anos 80. As canções eram afiadas e o multi-instrumentista, de sangue judeu e negro, levou referências, que hoje teriam um público segmentado, ao estrelato internacional, chegando, no ápice de Fly Away e American Woman, a ser o primeiro artista a ganhar quatro Grammys consecutivos pela mesma categoria.
Duas décadas depois, a receita continua a mesma. Aos 47 anos, sua música, como mostra Black and White America, disco com 16 músicas novas gravado nas Bahamas e em Paris, que vai ser lançado no dia 22 de agosto no Brasil, ainda é um mélange espirituoso de hard rock e funk, que envereda pelo hip hop e outros estilos, trazendo mensagens positivas, embora um tanto aguadas e clichês. No saguão de um hotel do West Village, em Nova York, Lenny, que vai se apresentar no Rock in Rio, no Parque Olímpico Cidade do Rock (na Barra da Tijuca), no dia 30 de setembro, falou ao Estado sobre seu processo criativo, a ideia do disco e revelou o conselho que recebeu do ator Denzel Washington.
A faixa título de seu novo disco prega a igualdade racial. Trata-se de uma reflexão sobre a era Obama?
Não. Estava pensando mais em minha própria vida, no contexto birracial em que cresci. Meu pai é judeu e minha mãe afrodescendente. Ambos estavam envolvidos na luta pelos direitos civis, nos anos 1960. Mas Obama tem a ver sim, pois a ideia de fazer essa canção me veio enquanto assistia a um documentário sobre americanos, em 2010, que não suportam viver sob o governo de um presidente negro. São pessoas que querem que as coisas voltem a ser como eram há 60 anos. E a letra é minha resposta a elas, pois as coisas mudaram para melhor e é bom eles entrarem no esquema.
Você já se sentiu fora desse esquema por ser meio negro, meio judeu?
De maneira alguma. Minha mãe me ensinou a ter orgulho das minhas raízes. Mas sei de pessoas que sofreram muito por terem sangue birracial.
O disco é bem otimista. Está numa boa fase?
Minhas músicas sempre são otimistas. Tive alguns períodos sombrios, como em Circus, mas na maior parte a mensagem é positiva. Eu estou em uma fase boa porque decidi me retirar da sociedade por algum tempo. Fui para as Bahamas e fiquei isolado por lá.
Por quanto tempo?
Dois anos. Montei um estúdio na praia. Eu precisava estar em contato com o meu eu interior e não conseguia. Precisava me curar, refletir e produzir o que fosse necessário.
É possível perder a noção da realidade por causa da fama?
Nunca perco a noção da realidade, pois ela está em qualquer lugar. Mas por estar sempre na correria, tocando, produzindo, doando, tratando de dinheiro, negócios, etc… O seu íntimo começa a sofrer porque você não está focado em quem você realmente é. A atenção se perde em outros aspectos e as coisas chegam a um ponto em que você não consegue mais lidar com elas em paz. Por isso, precisei me retirar, pensar mais em mim. A palavra recreio tem a ver com recriar e eu precisava fazer exatamente isso, reconstruir a minha pessoa. Caso contrário, ia acabar enlouquecendo.
Você fazia música retrô antes de ela virar moda. O que o levou a isso?
Verdade. Eu fui o culpado. Mas alguém tem que fazer primeiro, não? (risos). Não tinha nada a ver com ser retrô, ou fazer um tipo. Eu queria fazer música orgânica. Lembro uma vez em que comprei um monte de equipamento, tudo que era moderno em 1989. Comecei a apertar os botões e não dava certo. Tinha que ler os manuais, aprender a fazer tudo e os sons eram frios. Então devolvi tudo e comprei uma bateria, um teclado, um baixo e uma guitarra. Foi quando gravei meu primeiro disco.
E como surgem as sonoridades vintage, os riffs de guitarra dos anos 1970?
Eu só sigo a composição. Começo com uma ideia ou uma canção completa. Às vezes, sonho com as canções. Aí começo a ouvir. Se coloco metais ou percussão não é porque eu quero, mas porque a música está me pedindo. Foi assim com o Jay-Z e o Drake. Eu escutei as rimas do Jay e liguei para ele.
Você trabalhou no filme Preciosa – Uma História de Esperança, de 2009, que tem atuações marcantes e ganhou dois Oscars.
Como você lida com a câmera. É natural ou você se prepara bastante?
Funciona do mesmo jeito com a música. Eu simplesmente faço. Não penso. Denzel Washington é como um irmão para mim, mas quase nunca falamos sobre o assunto. Uma vez pedi um conselho e ele me disse: “Não atue”, e saiu andando.
BLACK AND WHITE AMERICA
WARNER
LANÇAMENTO NO BRASIL EM 22/8
Agência Estado
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